Toda vez que alguém pergunta da brisa, um panda morre
As comunidades psiconáuticas são bem interessantes. Uns diriam que é para-raio de doido, mas eu sempre me diverti - e me encantei - demais com esses espaços online. Vem gente de todo tipo. Tem o hippie doidão que tem idade pra ser bisavô. Tem o bicho-grilo natureba. Tem os curiosos. Tem aqueles que somam centenas de experiências num currículo invejável. E tem o Zé Droguinha...
Quando eu comecei minha jornada com as medicinas, fiz o que qualquer millennial que se preze faria: procurei comunidades on-line pra me juntar aos meus irmãos psiconautas, é claro. Depois de pisar em chão de borracha, ver o corredor da casa entortar, fazer xixi colorido e descobrir o sentido da vida, a gente precisa conversar com quem já passou por isso. Então, lá fui eu.
As comunidades psiconáuticas são bem interessantes. Uns diriam que é para-raio de doido, mas eu sempre me diverti - e me encantei - demais com esses espaços online. Vem gente de todo tipo. Tem o hippie doidão que tem idade pra ser bisavô. Tem o bicho-grilo natureba. Tem os curiosos. Tem aqueles que somam centenas de experiências num currículo invejável. E tem o Zé Droguinha.
Ah meu Deus! O Zé Droguinha... eu sinceramente não sei o que sentir por ele. Não que eu esteja julgando o pobre rapaz, Deus me livre. Depois que eu alcancei a morte do ego, me iluminei e vi o Nirvana, não faço mais isso (wink, wink). Mas o Zé Droguinha é aquele cara que quer sentir um barato legal. E eu não o culpo. Às vezes o que a gente quer mesmo é sair do corpo.
O cara tá naquela vida... vodka com energético, um baseadinho... até "lança-perfume" já rolou na última festa na piscina. Aí o cara escuta sobre um tal de cogumelo, ou então do chá dos índios. O pior é que contaram para ele que dá barato. É claro que ele vai querer conhecer e então ele chega nos fóruns, no Reddit, no Discord, na roda de amigos e manda a clássica: "Mas e aí irmão, qual é a BRISA desse cogumelo aí?"
Puxa vida cara... BRISA DO COGUMELO? Tá de brincadeira! É nessas horas que o pessoal na roda se entreolha constrangido. Quem vai falar pro cara que ele tá sendo moleque? Quem vai pegar na mãozinha dele e dizer "pelo amor de Deus cara, não!"?
Mas, sabe de uma coisa? Tem uma verdade desconfortável no Zé Droguinha. Muitos de nós já estivemos lá. Talvez a maioria, só que na versão sapatênis. Sim, muitos procuram as medicinas porque sabem que precisam se curar de traumas ou dar uma direção para a vida, mas muita gente chegou por curiosidade. A mesma curiosidade do Zé, só que numa embalagem mais bonita.
Pelo menos, nosso amigo Zé é sincero. Ele já mostra logo de cara a que veio. Ele quer sentir "um negócio gostosinho". E tá bom... vamos ser sinceros aqui. Se por brisa o nosso amigo se refere àquela sensação gostosa de embriaguez e euforia que as medicinas podem nos dar, então sim, cogumelos - e no limite até a Ayahuasca e o rapé - dão brisa sim.
Nós podemos até chegar procurando sensações. Isso é humano. Só que no meio do caminho acontece peia, acontecem as "bad trips", você se caga de medo. Você acessa coisas tão escuras e emaranhadas que não fazia ideia que estavam lá. E então precisa integrar tudo isso. Todo psiconauta, xamanista, enteogenista... seja lá do que você se chama... sabe que, ok, você vai ver mandalas e geometria sagrada. Sua realidade vai virar no avesso e você vai acessar camadas que nem imaginava existir.
Só que existe o trabalho inevitável que acontece para além dos fogos de artifício. Quem tem coragem de arregaçar as mangas e trabalhar em cima daquilo que foi ensinado, cresce. E volta! Mas quando volta, não é mais pela brisa. Volta pelas lições. Por isso que muitos se referem às medicinas como professoras.
E você? Conseguiu atravessar a curiosidade para começar a integrar? Porque integrar significa refletir, cuidar do sono, da alimentação, do corpo e das relações. É juntar a bagunça do nosso eu, espalhada por todos os cantos, e fazer com que essas partes - muitas vezes conflitantes - consigam coabitar quem você é em harmonia.
Pense nisso.