Da curiosidade à primeira dose - Parte I
Entre a curiosidade e a primeira dose existe uma travessia. Nesta primeira parte, compartilho alguns cuidados sobre intenção, escolha da medicina e companhia segura para quem sente o chamado dos psicodélicos.
Da curiosidade à primeira dose - Parte I
Antes de abrir a porta: intenção, medicina e companhia segura
Entre a vontade de conhecer e a primeira dose de psicodélico existe um caminho a ser trilhado. Você pode passar por ele de trem-bala ou de bicicleta, mas passará. Se eu puder dar um conselho humilde: preste atenção a essa jornada, porque ela acontece apenas uma vez e vai determinar seu futuro com as medicinas.
Esta série de postagens funcionará como um guia modesto para te levar até sua primeira experiência. Pense nele como o checklist de um piloto antes de levantar voo.
1. O que te traz aqui?
Quando falamos em enteógenos, intenção é fundamental. Você não precisa de uma tese de doutorado, mas é bom ter claro por que está tomando sua medicina. É pela sua cura emocional? Luta contra os vícios? Busca de sentido na vida? Autoconhecimento? Ou simplesmente vontade de ver mandalas bonitas girando?
Não existe resposta certa. O que existe é sua intenção sincera. Se for curiosidade, será curiosidade. Se for busca de sentido, assim será. O importante é se conhecer.
2. Escolhendo sua medicina.
Eu posso falar sobre duas medicinas com conhecimento de causa: cogumelos e Ayahuasca. Elas não são os únicos psicodélicos, mas são naturais e certamente os mais populares.
Psicodélicos sintéticos existem. São vários nomes, várias siglas e diversos efeitos. Não cabe a mim fazer julgamento moral sobre eles. O LSD, por exemplo, está sendo estudado terapeuticamente em países como a Suíça. O grande problema dos sintéticos é nunca ter certeza sobre sua pureza. Muita gente compra NBOMe acreditando ter comprado LSD, por exemplo. E isso é um perigo.
Sendo assim, minha recomendação é: saiba o que você está ingerindo. Cogumelos inteiros são melhores que cogumelos em cápsula, ou em barras de chocolate.
Ayahuasca pode ser segura em contexto sério, com triagem, condução responsável e respeito aos seus riscos. Existem igrejas daimistas e vegetalistas. Também existem centros xamânicos universalistas sérios. Casa séria faz triagem. Se não fizer, desconfie. Faça sua pesquisa, procure pela reputação dos locais e dos dirigentes.
Vale um alerta de amigo: tanto a Ayahuasca quanto os cogumelos com psilocibina podem interagir de forma perigosa com algumas medicações, como certos antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores de humor e calmantes. Pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar, esquizofrenia, histórico de psicose ou outros transtornos psiquiátricos graves devem se abster de psicodélicos por segurança.
3. Sozinho ou acompanhado?
Normalmente somos a única pessoa com vontade de conhecer psicodélicos no nosso círculo social. Eu já estive lá: um curioso solitário. Antes da primeira dose sempre fica a pergunta sobre com quem fazer a experiência e como. Alguém deve tomar comigo? Devo ter uma babá que tomará conta de mim, sem tomar a medicina? Devo me isolar completamente?
Jornadas solitárias são sempre possíveis, mas aqui entram cuidados incontornáveis. Primeiramente, nunca, jamais, consagre Ayahuasca sozinho. Principalmente na sua primeira vez. Uma jornada de expansão da consciência é assunto sério. A Ayahuasca é reservada para uso ritualístico e isso deve ser respeitado absolutamente. Você pode se colocar em perigo se não souber lidar com esta linda e poderosa medicina.
Cogumelos não são regulamentados no Brasil e isso é um problema. Tem gente vendendo abertamente, sem problemas, tem gente que já teve problemas na justiça. De todo modo, eles são fáceis de se encontrar. A colheita deles na natureza é uma possibilidade, mas deve ser feita apenas por quem é experiente em sua identificação. Se você é iniciante, melhor deixar essa opção para outro momento da sua jornada.
Se você escolheu seguir a rota dos cogumelos e não tem acesso a uma experiência facilitada, mas mesmo assim está decidido a seguir em frente, aconselho alguns cuidados básicos. Nesse caso, o mínimo de segurança é não estar completamente desassistido: um ambiente preparado, uma pessoa sóbria e confiável por perto, e um plano claro para pedir ajuda se necessário.
3.1 Quem pode ser minha babá (tripsitter)?
Isso aqui vale apenas para cogumelos. Ayahuasca somente em institutos sérios.
Se sua medicina de escolha for os cogumelos, é bom você ter uma pessoa de confiança. O trabalho desta pessoa é simples, mas muito importante: ser um porto seguro. O ideal é que esta pessoa tenha alguma experiência com cogumelos também. Isso porque quem nunca tomou cogumelos não consegue entender o processo pelo qual quem toma está passando.
Também aconselho que esta pessoa seja alguém com quem você se sinta confortável no seu estado mais vulnerável. É comum que, em estados alterados, você precise de cuidados básicos, como ajuda para se hidratar e ir ao banheiro, por exemplo.
❌ Esta pessoa não deve:
- Engajar em conversas profundas, nem discutir com quem tomou a medicina. Isso pode ser muito desorientador.
- Ficar o tempo todo no ambiente de quem tomou os cogumelos.
- Fazer barulhos altos e súbitos.
- Entrar em pânico em caso de experiência desafiadora (bad trip).
✔ O que faz uma boa babá:
- Apenas assegura, com palavras gentis, que está tudo bem.
- Oferece conforto sutil, como um toque leve na mão, sempre com consentimento e respeitando o espaço da pessoa.
- Troca a música para uma mais leve quando a experiência estiver pesada demais.
- Oferece água e acompanha ao banheiro quando necessário.
3.2 Não tenho nenhuma babá. E agora?
Aqui é um ponto muito delicado. Sou completamente a favor da autonomia dos indivíduos. Quando um adulto decide fazer uma experiência de expansão da consciência, ele deveria conseguir fazer amparado pelo máximo de informação e segurança possível. Sendo assim, caso você não tenha ninguém para te acompanhar, aqui estão algumas sugestões:
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Escolha ir a um instituto que sirva Ayahuasca. Eu sei que você quer cogumelos, mas se não tem como, este é o melhor caminho. Lá existem pessoas com experiência para te ajudar.
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Tenha algum contato no seu celular que saiba o que você está fazendo. Se você tem algum amigo íntimo o suficiente para confidenciar sobre sua aventura, avise-o sobre onde e quando fará sua experiência. Avise-o quando começar e quando terminar.
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Remova todos os perigos do seu ambiente. Isso inclui armas, facas, fogo, drogas (lícitas e ilícitas), chave de veículos. Deixe seu caminho livre de obstáculos. Tranque a porta da sua casa para que você não saia sob efeito da medicina.
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Na sua primeira vez, comece com uma dose baixa. Não precisa ir com tudo, você terá mais oportunidades se aprender a navegar na força dos cogumelos.
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Garanta que você não terá interrupção alguma. Coloque o celular no modo avião, desligue o interfone da casa, avise as pessoas mais próximas que você estará indisponível nesse intervalo de tempo. Proteja esse espaço de tempo, isso é muito importante.
4. Set, setting e as etapas da experiência
Na próxima postagem da série, vamos falar sobre o set, ou seja, sua disposição mental; sobre o setting, ou seja, sobre o seu ambiente físico; e também sobre as etapas da experiência. São conhecimentos que fazem toda a diferença. Inclusive para psiconautas e buscadores experientes.