Anjos, alienígenas, caboclos e entidades nas medicinas
Foto: Foto de Bahram Bayat na Unsplash

Anjos, alienígenas, caboclos e entidades nas medicinas

Já encontrei alienígenas, Exu, caboclo e até gente que já partiu nas minhas experiências com as medicinas. Pode ser tudo da minha cabeça. Pode ser que não. Mas no fim, o que importa mesmo é o que isso fez comigo.

Eu gosto de pensar nas minhas experiências com as medicinas como um lugar que visito. Não sei se é assim com todo mundo, mas comigo é. Eu quase nunca caio no mesmo CEP astral quando eu vou para esse reino mágico, mas às vezes eu sinto que caio em "bairros" familiares. Sim, é papo de doido, mas por favor, tenha paciência que você vai entender.

Acho que tudo começa com os sentidos. Você toma sua dose, fica em concentração - muitas vezes ansioso... será que foi o suficiente? E aí começa. Aquela leve embriaguez, a dança das formas e cores. O corpo parece que vai flutuar, ou então a tampa que fica logo acima da sua nuca se abre e BUM você tá lá. É claro, na primeira vez é tudo novo, mas depois de um punhadinho, é como se você passasse por setores conhecidos que não são seus, mas o pessoal dali te conhece. Se você for educado o suficiente, talvez até te convidem para um cafezinho.

Meu primeiro contato com uma inteligência que parecia morar fora de mim foi no meu sétimo ritual com cogumelos. E não foi pouco não. De repente, me vi dentro de uma abóboda gigante, metálica. Tinha uma ponte de luz que levava até uma porta. Atrás dessa porta tinha uma sala de comando. Entrei e eles estavam lá: seres altos, esbeltos, com capacetes reluzentes e eles estavam ocupados. Quando eu entrei, eles ficaram impacientes. "O que você tá fazendo aqui?" Eles me pergutaram. Eu sei lá o que eu tava fazendo ali! Eu só tava andando à toa e caí lá. Como eu sou atrevido, não só não respondi como perguntei quem eles eram. "Somos os arquitetos da realidade. Estamos ocupados construindo o seu mundo." Me curvei diante deles, afinal os caras eram foda. Arquitetos. Da realidade! Saí correndo de lá. Vai que eu atrapalhasse e quando eu voltasse eu tivesse um par de braços a mais, né?

É claro, meus contatos não pararam por aí.

Para mim, os cogumelos sempre tiveram essa qualidade extraterrestre. Vi alienígenas pelo menos mais quatro vezes. Certa vez, eu estava passando por problemas sérios e me sentia bastante atribulado. Eu estava deitado no meu quarto e quando abri meus olhos vi um alienígena humanoide de uns dois metros e meio de altura parado à porta. Ele se aproximou de mim e colocou a mão dentro do meu peito. Senti uma onda de amor gigantesca tomando conta de mim. Pouco depois de ele se afastar, eu saí de dentro do meu próprio corpo, como se tivesse rolado para o lado na cama. E então, eu consegui me dar um abraço.

Naquela noite, consegui dar a mim mesmo o amor que eu precisava. Reconheci que eu era um guerreiro, que estava enfrentando demais e dando conta de tudo. Dei um tapinha nas minhas costas e afirmei "cara, você é um homem bom. Eu te amo. Você vai ficar bem."

Em uma das minhas cerimônias mais memoráveis com os cogumelos, numa dose particularmente alta, fui visitado por um padre amigo da família que havia falecido há alguns anos. Ele me confidenciou que havia destruído a própria saúde por não ter dado conta de viver como ele realmente gostaria. Me revelou as circunstâncias da própria morte, que eu não conhecia mas que pude confirmar depois. E naquela noite, ele me disse "Meu filho, existe lugar no Céu para você. Vai ser feliz do jeito que você é."

Nem tudo são rosas e carinho

Dá para perceber que quando alguém aparece nas vivências com as medicinas, eles costumam vir com um propósito. Ninguém de outro plano, ou de outra dimensão, aparece simplesmente porque quer participar da sua festinha psicodélica particular. E aqui preciso salientar principalmente as cerimônias com a Ayahuasca.

Na minha caminhada, os cogumelos sempre foram brincalhões. O arquétipo deles é justamente o dos "meninos santos". Com os cogumelos tem espaço para risada, curtição. A madrecita, por outro lado, é muito mais didática.

Entidades não aparecem o tempo todo. Não dá para simplesmente "invocar" alguém do outro plano. Na minha experiência, não é assim que funciona. E quando eles aparecem, normalmente têm alguma lição ou algum trabalho a realizar.

Eu lembro, como se fosse na semana passada, da primeira vez em que eu vi uma entidade na força da Ayahuasca. O salão estava com poucas pessoas quando eu o vi com os meus olhos abertos, como se fosse uma pessoa de carne e osso como as outras no salão: um homem de cartola e capa preta. Negro. Alto e forte. Imponente, mandando na parada toda. Tinha uma névoa negra que ele ia juntando com as mãos. Pegou tudo e arrastou para fora. E quando terminou de levar tudo, me veio uma das limpezas mais violentas na força da medicina.

Pois é amigos, depois eu descobri que aquele senhor era um Exu. Detalhe importante: fui educado na Igreja Católica e por toda vida fui totalmente ignorante quanto a entidades de umbanda. Estudando melhor depois, aprendi que em tradições ligadas à umbanda, Exu não é nada daquilo que imaginamos dentro da educação cristã.

Aquela experiência foi aterrorizante, não porque eu senti que um mal seria feito a mim, mas porque eu não conhecia aquela energia densa do Exu. Naquela noite ele me ajudou a limpar muita coisa ruim que eu carregava no meu peito e sou eternamente grato a ele, que inclusive me visitou mais vezes depois.

Também tive contato com um caboclo, que basicamente fez uma cirurgia espiritual; meu anjo da guarda, que me visitou para trazer segurança e avisar que estava de olho; e minha avó, que resolveu aparecer para bailar ao pé da fogueira comigo.

Nem sempre vem de fora

Os mais céticos - e eu os respeito pra caramba - vão dizer que tudo isso aí é projeção do meu ego. Ideias minhas e da cultura que me cerca. Tudo bem, pode até ser mesmo. E é fundamental fazer uma distinção importantíssima: quando a nossa mente tagarela fica matrequeando e criando coisas, e quando existe aquela ponta de inexplicável.

Já tive manifestações que, depois de sair da força, entendi claramente que tinha meu ego gigante falando. Com o tempo a gente vai aprendendo a diferenciar. Quando somos nós criando a experiência, normalmente esses contatos são cheios de conversa. O falatório não para. Tem muitas ideias acontecendo e, curiosamente, as ideias concordam com a nossa narrativa muito convenientemente. E sabe qual a sensação que vem depois? Aquela vergonha de ter caído igual pato numa conversa fiada. Normalmente não demoramos a cair na real. Se tivermos maturidade, isso rende umas gargalhadas e algum aprendizado.

As experiências que eu considero legítimas, por outro lado, têm um fio comum que as ligam: elas são necessárias e são fortes. Não tem muito falatório. A entidade, seja lá qual for, aparece, mostra o que tem que mostrar, limpa, cura e vai. Nem sempre a interação vai no sentido mais gostosinho, na direção que a gente quer para nossa conveniência.

O Exu que apareceu, não apareceu para me dizer que eu sou especial. Ele apareceu para me mostrar que eu tinha coisas feias dentro de mim. E ele limpou e foi embora. O caboclo que me curou não se preocupou em ser um cara legal. Ele apareceu, puxou uma raiz negra do meu chakra cardíaco e pronto. O alienígena que apareceu no meu quarto não quis fazer amizade, só quis me mostrar que eu precisava me amar.

Afinal, eles são reais? Vieram de outro lugar? Eu gosto de acreditar que sim porque eu sou livre para isso. Principalmente quando envolvem entidades das quais eu nem tinha conhecimento prévio, como o Exu, por exemplo. Ainda assim, se eu fosse dar meu braço a torcer para o ceticismo e concordasse que são projeções da minha própria consciência, o mais importante é que todas essas experiências foram reais na transformação que elas me proporcionaram. E isso é o que realmente importa.

Quando cuido da minha alimentação, do movimento do meu corpo, da paz de espírito e da segurança em ser quem eu sou... então tudo valeu a pena. Por isso, fica aqui minha gratidão a todos os meus amigos que me acompanham nesta jornada, sendo da terra, da minha mente, ou do astral. Haux haux!