Tarja preta, ou tarja verde?
Quando falamos em saúde mental, um dos maiores desafios na jornada para cura é abandonar velhos padrões e atacar a causa dos nossos sofrimentos. Até hoje, os antidepressivos clássicos têm sido uma importante ajuda no alívio dos sintomas. Enquanto a maior parte dos pacientes continua com dificuldades para tratar as causas, os enteógenos surgem como nova esperança.
Você já reparou como muita gente vive conformada com a própria sensação de angústia? Como se o desconforto de estar no mundo fosse algo garantido, que no máximo podemos amenizar desviando nossa atenção para o próximo meme? Por muito tempo eu também acreditei que as distrações do mundo eram suficientes, até não serem mais.
Esses dias eu estive pensando sobre a minha caminhada com os enteógenos. Percebo que a minha relação com as medicinas foi se transformando com o passar do tempo. Começou com uma curiosidade quase infantil, para logo depois se transformar numa busca por cura e, mais tarde, desenvolvimento.
Só que é justamente a busca por cura que traz muita gente até as medicinas da floresta. Estamos cansados de sofrer. Achei alguns dados que resumem um pouco o nosso cenário e não é nada animador:
1. Diagnósticos de depressão estão aumentando
- 2013: 7,6% dos adultos tinham diagnóstico de depressão
- 2019: 10,2% (IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde)
Nas capitais brasileiras:
- 2020: 10,9%
- 2024: 14,5%
Fonte: Ministério da Saúde – Vigitel.
2. O consumo de antidepressivos também cresce
Entre 2014 e 2020, o consumo de antidepressivos no Brasil mais que dobrou.
- 13,7 → 33,6 DDD por 1.000 habitantes/dia, aumento de cerca de 145%
Fonte: dados do SNGPC / Anvisa publicados em estudo científico.
👉 Ou seja: cada vez mais pessoas usam medicamentos psiquiátricos.
3. O sofrimento mental continua aumentando
Indicadores de afastamento do trabalho por transtornos mentais:
- 2024: 472 mil benefícios
- 2025: 546 mil benefícios
Fonte: Ministério da Previdência.
👉 Ou seja: o impacto dos transtornos mentais na vida real também cresce.
Estaríamos tratando apenas os sintomas e ignorando as causas?
Temos mais medicamentos e mais terapias disponíveis do que em qualquer outro momento da nossa história. E, ainda assim, o número de deprimidos apenas cresce. Eu já vi e vivi essa novela: um mal estar te leva ao psiquiatra e/ou terapeuta e você faz o que dá. Toma remédio, abre seu coração, tenta ajustar seu comportamento, mudar sua perspectiva. Encontra algum alívio, até que algum outro golpe te joga para baixo de novo.
Se você tinha avançado, lamento: volte quatro casas atrás no tabuleiro da vida e procure outro medicamento, volte para a terapia - que você nunca deveria ter parado - e tente de novo.
O avanço é lento, os padrões se repetem, a angústia persiste. Até onde?
Depressão nunca é simples. Normalmente a causa não tem um único nome, mas parece ser sempre uma salada de coisa ruim que decide se juntar na tempestade perfeita. Pode ser pressão da família e do trabalho, falta de sentido na vida, traumas acumulados, coração partido, insegurança alimentar, isolamento social. Tudo isso e mais um pouco entra na equação.
Antidepressivos clássicos são ótimos para estancar o sangramento da alma. O paciente consegue, pelo menos, colocar a cabeça para fora d'água e se manter funcional. Nossa cultura é viciada em produtividade. Se nossas angústias podem ser rapidamente silenciadas, qual o sentido em gastar tanto tempo tentando resolvê-las? Se nosso amigo deprimido puder bater o cartão de ponto na segunda-feira às 08h, isso basta. Não basta?
E se algo nos ajudasse a parar de repetir sempre os mesmos erros?
É muito curioso como normalmente ouvimos um padrão de repetições por parte de quem sofre com transtornos mentais. Coisas como "sempre me envolvo com cafajestes", ou "sempre termino afogando as mágoas na bebida", ou "sempre que parece que vai melhorar, eu dou um jeito de estragar tudo." Abandonar os velhos padrões, por mais que eles nos machuquem, nunca foi tarefa simples.
A ciência vem confirmando o que os povos originários aprenderam há séculos - há quem diga milênios. Os psicodélicos, também conhecidos como enteógenos, têm o potencial de mudar nossos padrões num nível mais profundo que apenas o alívio dos sintomas consegue.
Tanto a psilocibina, dos cogumelos, quanto o DMT da Ayahuasca, quando agem em nosso organismo, reduzem temporariamente a atividade da nossa rede de modo padrão. Essa rede não é uma parte anatômica específica do cérebro, como por exemplo, o lobo pré-frontal ou nossa glândula pineal. Trata-se, na verdade, de um padrão de conectividade difusa que se estende por grandes regiões do nosso cérebro. E é justamente ela que mantém nosso ego funcionando normalmente durante a vigília.
Nossa rede de modo padrão é importantíssima. É ela que "automatiza" nosso comportamento. Ela cria atalhos importantes para economia de energia que o nosso cérebro demanda. O problema é que nem todo atalho nos leva para aquilo que é o melhor para nós, às vezes é justamente o contrário.
Quando a rede de modo padrão é temporariamente desorganizada acontecem algumas coisas. Dentre as mais marcantes, podemos citar o sentimento de conexão com todo o universo, o que normalmente cria experiências místicas profundíssimas; e também a abertura para novas maneiras de olhar para velhas situações de nossas vidas. Aí está o grande potencial de transformação pessoal e social: perde-se a noção de isolamento, ganha-se a capacidade temporária de se abrir para novas ideias que podem nos tirar dos velhos padrões.
É claro, não podemos deixar de incluir nessa receita outros elementos fundamentais. Em processos de expansão com as medicinas, é muito comum que as pessoas relatem um amor sem tamanho. Outra experiência bastante comum é o assombro diante de uma beleza que antes nunca poderia ter sido imaginada pela pessoa mergulhada nesta vivência.
Acredito que as medicinas da floresta consigam nos mudar em maior profundidade porque, além do bem estar absurdo que elas podem trazer, desarmam nosso ego. E isso é ótimo para que possamos encarar os conteúdos que mais nos assustam. Se alinhamos tudo isso com o compromisso de fazer o trabalho necessário DEPOIS da cerimônia, então podemos ingressar num caminho de cura profunda.
Talvez a maior esperança para nosso mal-estar não esteja em caixas tarjadas de preto, mas sim no verde da floresta.
Pense nisso.