Pai rapé ensinador
Fui atrás da Ayahuasca e acabei descobrindo no rapé uma medicina de chão, corpo e firmeza. Entre tremores, rezos, limites e presença, fui aprendendo que nem toda expansão leva para cima. Algumas nos trazem de volta para a vida concreta.
Pai rapé ensinador
Na minha primeira visita ao centro xamânico, me avisaram que eles trabalhavam com três medicinas, sendo elas a Ayahuasca, a Sananga e o Rapé. Fui mirando na Ayahuasca, é claro, porque eu queria ver o que ela me mostraria. Na minha ingenuidade, pensei nas outras duas medicinas como se fossem um "opcional a ser acrescentado ao prato principal." Eu não poderia estar mais enganado.
O que é o rapé?
Simplificando, o rapé geralmente é feito a partir de tabaco moído e cinzas de plantas, podendo receber outras ervas conforme a tradição e a finalidade da mistura. Existe uma grande variedade, cada uma para um propósito. Este pó é soprado nas narinas com o uso de tepi, quando é aplicado por outra pessoa; ou com um kuripe, quando se é autoaplicado.
Se as medicinas de expansão da consciência, como cogumelos e Ayahuasca te levam para cima, para o astral, o rapé faz justamente o movimento oposto: te aterra. Se encantar com o colorido dos psicodélicos faz parte do crescimento de todo buscador, mas seria um engano parar nessa etapa. Isso é porque não podemos viver de ideias. É na ação e na mudança de vida, que a transformação acontece.
No começo, é terremoto
Ainda na minha primeira vivência, na força da Ayahuasca, fui convidado para a mesa de rapé. Fui morrendo de medo, mas fui. Tanto que pedi ajuda para um irmão que estava servindo naquele dia. E, olha... sou muito grato a ele por me encorajar!
Meu primeiro sopro foi leve e com pouca medicina. A ideia era apenas conhecer, mas ainda assim, nada poderia me preparar para aquilo. A primeira sensação só pode ser descrita como um "pelo amor de Deus, o que é que eu tô fazendo com a minha vida?!" Lembrando, dou risada até hoje.
Usamos rapé feito com Pau Pereira. Na minha experiência e observação, as reações mais comuns são tremores, calafrios, suor intenso, salivação intensa, choro e, é claro, eventualmente limpeza por vômito. Pois é, amigos, rapé é medicina séria que exige o devido respeito. Não deve ser usado recreativamente.
Mas o que eu vou ganhar com tanta sofrência?
É uma pergunta muito honesta e eu mesmo me fiz essa pergunta nas minhas primeiras consagrações dessa poderosa medicina. Acontece que a luta do corpo nesta medicina é justamente o palco onde a transformação acontece.
Em nossas vidas, quantas vezes não temos nossa firmeza testada? Precisamos atravessar trabalhos exaustivos, problemas familiares, perigos, decisões difíceis. Quantas vezes, mesmo adultos, não nos vemos cara a cara com o medo?
O rapé trabalha, também, nossa capacidade de ficarmos presentes no desconforto. Você está lá, sentado no seu lugar, seu corpo lutando com os efeitos do rapé. Você acredita que não vai dar conta até que percebe que deu conta, sim senhor. Rolam lágrimas, tremores... você até enche seu baldinho, mas no fim, você está ali. Presente.
Rapé é aprendizado
A experiência do rapé não é completa com apenas um sopro. Existe uma caminhada.
Por exemplo, nos meus primeiros meses consagrando o rapé, eu basicamente ficava tentando controlar o desconforto. Hoje eu vejo que era uma tentativa meio besta da minha parte, porque o desconforto não some só porque a gente quer. E isso fala muito com a vida prática, não é mesmo? O pulo do gato foi quando eu descobri que era possível trabalhar com o rapé mesmo quando o corpo gritava por socorro.
Também fez parte do meu crescimento, aprender que o meu próprio limite precisa ser respeitado. Rapé não é prova de resistência. Existe ocasião para sopro suave e existe ocasião para sopro forte. É bom saber diferenciar cada uma delas.
Toda medicina deve ser consagrada com intenção. O momento do rapé é ótimo para pedir firmeza, coragem e clareza, por exemplo. Quando eu comecei a colocar uma intenção firme no meu rapé, consegui acalmar minha mente diante dos efeitos. Então começou um outro tipo de expansão, muito diferente daquela que acontece na Ayahuasca. Foi uma expansão amorosa, mas voltada para baixo: para o chão, para o corpo, para a vida concreta. E isso me ajudou muito a manifestar as intenções que eu coloco na medicina.
Minha relação atual com o rapé
Faço meu rapé semanalmente. Sei de gente que toma rapé diariamente, várias vezes ao dia. Vale lembrar que toda medicina precisa ser usada com propósito claro, para não correr o risco de virar abuso. Cada buscador encontrará o ritmo e o momento que faz mais sentido para si.
Sempre faço meu uso ritualizado. E aqui também é muito pessoal. Gosto de honrar os quatro elementos, saudar as quatro direções, limpar meu ambiente. Coloco música ambiente que ajude a criar a atmosfera que eu quero. Faço meus rezos. Você pode elaborar seu próprio ritual.
Meu momento semanal de conexão com o pai rapé é sagrado para mim. É hora de limpar, pedir, agradecer, me conectar com meus guias e comigo mesmo.
Lembrando que cada pessoa vai desenvolver sua própria relação com as medicinas. Não existe um receituário para isso. Existe escuta, respeito, segurança e caminhada. Cada um deve seguir seu próprio sentir, sem pressa e sem vaidade. Haux Haux!